Entrevista com o escritor e humorista Giovani de Oliveira, para o Jornal do Centro-Sul.

Filho natural de Iguatu, o escritor e humorista Giovani de Oliveira tem verdadeira paixão pela terra natal e pelo humor – carregado de cores. Faz dessa visão de mundo objeto de estudo e o seu modo de levar a vida. É autor do sucesso editorial “O Direito de Rir”, que vai para a sétima publicação. Na entrevista que segue, realizada na praça da Matriz de Iguatu, o escritor fala de como o humor chegou à sua vida, do Festival de Humor cearense, do qual é um dos idealizadores, e de novos projetos.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Você é iguatuense. Gostaria que falasse um pouco da sua infância aqui na cidade e juventude.
GEOVANI DE OLIVEIRA – Eu nasci em Iguatu na década de 50, em 1953, vou fazer agora dia 31 de agosto 62 anos, mas não tem quem diga todo mundo acha que eu sou mais velho (risos). Brincadeiras à parte, eu nasci nessa cidade que eu amo, eu tenho por essa cidade um amor muito profundo, sou muito bem relacionado, tenho minha família aqui, meu pai, Isaias José de Oliveira, que está com 96 anos, que eu tenho o maior orgulho. A minha infância foi de jogar futebol e tomar banho no Jaguaribe que para mim são momentos inesquecíveis, eu tenho orgulho de minha infância e de ter nascido nesse interior. Na juventude fui estudar em Fortaleza, aos 17; eu jogava futebol, fui bicampeão da taça Aldeota. Terminei a faculdade de direito, morei dois anos em Portugal, na Península Ibérica; voltei, assumi a Cerâmica Arara, que hoje esta arrendada, e atualmente voltei a morar em Fortaleza.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Em que momento o humor chegou à sua vida?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Eu sempre fui louco por circo, eu lembro que tinha um palhaço aqui chamado “Lapichou” do Circo Art-Palacio, que era do João Alencar, ex-vice-prefeito, um amigo meu de infância por quem tenho o maior respeito. E eu sempre tive essa verve, vem muito da minha mãe que era uma pessoa muito espontânea, que gostava muito de brincar, e eu acho que eu herdei isso dela. Depois passei a estudar o humor, hoje eu sou um estudioso do humor. Estou terminando o meu oitavo livro “O Direito de Rir VIII”. No meu último livro eu trouxe versos em cordel que tive oportunidade de lançar em Coimbra (Portugal) e foi muito bem aceito.

JORNAL DO CENTRO-SUL- Como avalia o humor cearense?
GEOVANI DE OLIVEIRA – O Leonardo Mota explica que esse nosso humor é devido à nossa mistura de índios com pretos, com sírio-libaneses, ibéricos, e tem a questão do problema climático. Então, o humor para o cearense é um oxigênio, o cearense faz humor da desgraça dele, o que é o grande lance. Você fazer humor de barriga cheia, com sua conta bancária cheia, é fácil. No humor cearense tem muita gente boa, mas tem alguns equívocos, tem gente que fica falando palavrão em churrascaria e pensa que é humor, humor não é nada disso, é muito mais, humor é inteligente, mais complexo, se apresenta de várias formas, satírico, debochado, e não tem partido, não tem ideologia e, principalmente, o humor cearense é muito importante para a nossa história e para a nossa cultura. Chico Anysio era um grande humorista, tinha 209 personagens, sabia tudo de televisão e, acima de tudo, era um grande caráter. Eu sugiro quem for a Fortaleza vá visitar o Museu Chico Anysio, na avenida da Universidade. O Jader Soares, amigo humorista e diretor do museu, diz que o humor hoje está na internet, eu sei que a internet na sociedade contemporânea é importantíssima, que abre fronteiras, mas o humor para mim está aqui no interior, no mercado, num bar, na praça, nas ruas. Eu criei um personagem que eu vi aqui na praça, o “Chico Catraca”, e no meu trabalho anterior ele fez muito sucesso. Ele é um cientista político, filósofo, psicólogo, ele é um versátil, então ele descobriu que em Brasília os políticos não são desunidos como prega a imprensa, eles são unidos, certa vez ele viu por lá dois políticos de partidos diferentes dividindo um táxi, um ficou com o motor e o outro levou os assessórios (risos).

JORNAL DO CENTRO-SUL- Quem são suas referências no humor?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Tem um cearense que se chama Paula Ney, ele nasceu em Aracati (CE), é um dos primeiros humoristas. E tem o Aparício Torelly, o barão de Itararé, que para mim foi o maior humorista do Brasil, a minha referência, o meu espelho é ele. Tem um livro sobre ele que eu estou trabalhando que se chama “Entre sem bater”.

JORNAL DO CENTRO-SUL- O humor é só para fazer rir?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Não, o humor é uma sobrevivência, você não vive sem humor, você pode não comer, mas você não pode deixar de dar risada, senão vira doença, e isso é provado cientificamente. Humor também é uma coisa muito séria e tem situações na vida da gente, sérias, que você tem que rir de tão sérias que são.

JORNAL DO CENTRO-SUL- Como surgiu a ideia do livro “O Direito de Rir”?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Esse livro surgiu na época do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] no Ceará, foi um dos partidos que mais incentivou o humor aqui. Eu ia com o Tom Cavalcante, que eu considero um dos maiores talentos aqui do Estado, para a ilha do Fagner, do Eliseu Filho, e eu contava as histórias para o Tom que levava para o público do teatro; certa vez o Fagner e o Silvio Holanda Amaro, que nos deixou cedo e que para mim foi um dos maiores escritores do humor do Ceará, me incentivaram e disseram “Geovani, vai juntando, vai juntando essas histórias”. Eu pensava que ia ficar no primeiro, fiz por uma brincadeira, mas é como eu lhe digo: o Ceará é uma fonte inesgotável de humor. Outro dia eu desci ali no mercado e chegou um senhor e disse pra mim: Geovani, eu quero te contar uma história. Uma senhora foi servir para ele um café com tapioca e ele foi dar atenção para essa mulher e quando voltou esqueceu a história, aí ele disse: ô Geovani, hoje eu só tô prestando mesmo para guardar segredo, quer dizer, ao invés de se lastimar porque está perdendo a memória, o cara faz piada.

JORNAL DO CENTRO-SUL- E o FHC, como surgiu?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Foi num momento em que o Brasil estava passando por dificuldades, o Fernando Henrique Cardoso quebrou o país por três vezes e ele estava com uma impopularidade absurda, ninguém podia nem falar nele. Eu tinha pensado num festival do humor iguatuense, mas aí pensei: vamos abranger mais. Na hora de criar o projeto, criei esse nome. E o Jader Soares e eu decidimos homenagear também o famigerado ACM, que todo mundo pensava que era o Antonio Carlos Magalhães, e nós homenageamos na verdade o Airton Cachorra Magra que é um cara aqui de Iguatu que todo mundo conhece. Nesse caminho criamos o FHC. Assim como o “Direito de Rir” eu pensava que ia ficar numa primeira edicão. E foi fantástico, porque colocamos no Iguatu a divulgação: era só o que faltava, FHC no Iguatu! E deixamos por 15 dias no ar, e as pessoas ficaram comentando nos bares, nas praças. Só depois lançamos o Festival. Então, foi inspirado na figura do Fernando Henrique Cardoso.

JORNAL DO CENTRO-SUL- Geovani, você está sempre de bom humor? 
GEOVANI DE OLIVEIRA – Graças a Deus, sim, para mim o humor expurga muitos demônios, ele revitaliza. Eu sou uma pessoa bem humorada, alegre, mas eu tenho os meus momentos. Por exemplo, eu tenho um filho de 18 anos na universidade que na semana passada me ligou, ia dar vinte para meio-dia, dizendo que duas colegas dele e um professor tinham sido assaltados naquela hora dentro da universidade, isso me deixa muito triste. Eu posso acordar alegre, mas isso me deixa muito triste. Esses bandidos pegarem o dinheiro público nessa operação que estamos vendo, isso não é de hoje, isso vem de muitos anos, se algo tivesse sido feito há anos atrás, não estava reinando essa impunidade. Eu sou advogado, eu sei. E eu pago meus impostos. Você não ter um remédio, pobre morre no hospital, você não ter segurança, você ouvir o seu filho dizer que estava com medo porque foram assaltados duas colegas e um professor, isso me entristece, mas não vai me deixar de baixo astral. Tem uma história engraçada de um palhaço que fazia muita gente rir, e ele chegou ao médico e disse que estava muito triste, que a vida não tinha mais sentido, começou a contar as lamúrias e o médico disse “olhe, eu vou prescrever o remédio, mas eu quero lhe dizer uma coisa, tem um palhaço aqui na nossa cidade no circo que está fazendo todo mundo rir”. E ele disse: é, mas eu sou esse palhaço. Então, é o seguinte, às vezes você faz rir e está sofrendo. A alma da gente é muito complexa.

JORNAL DO CENTRO-SUL- Está mais difícil fazer humor?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Não, porque têm sempre eles, os políticos que são uma fonte inesgotável. Aqui quando há eleição, principalmente municipal, você “arranca” muita coisa, tem aquela máxima que diz que “se faz chorar, pode fazer rir”. Você tem que saber transformar isso, é um mecanismo, que de qualquer maneira dói. Você vai para um espetáculo como eu fui assistir ao Zé Lezin, no Via Sul, e quando você sai de lá, você é assaltado, aí você diz, eu não vou lá porque o meu colega foi assaltado, isso é deprimente. O Millôr Fernandes é que dizia que o humorista não atira para matar, ele dá o tiro. Então é isso, a gente sofre como diz o Macaco Simão, “nóis sofre, mas nóis goza!”.

JORNAL DO CENTRO-SUL- Você se declara um apaixonado pelo Iguatu. Qual avaliação faz da cidade? Iguatu vai bem?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Eu acho que não. Porque para falar de Iguatu, uma cidade que eu amo, politicamente você vê grupos que não se unem; você vê no Cariri, lá eu já vi muitos políticos que vão buscar votos para seus partidos e depois eles se juntam. Aqui eu vejo essa desunião, essa coisa muito ruim para a nossa sociedade e politicamente Iguatu poderia estar muito melhor. Eu queria que entrasse um – qualquer um – que fizesse o esgoto dessa cidade, Iguatu tem mau hálito. Eu não gosto disso, mas sei que é complexo. Eu não tenho cargo político, sou amigo de todo mundo, me relaciono bem com todo mundo, tenho respeito por todos. Não gosto dessas picuinhas, de gente que fica secando gente pra se dar mal, não gosto disso, e o nível de Iguatu nos últimos anos tem sido essa mostra e politicamente eu acho isso muito pobre.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Quais são seus próximos projetos?
GEOVANI DE OLIVEIRA – Estamos com um projeto dentro do Museu de Chico Anysio, que já está feito, está faltando bem pouquinho, já está batendo na trave. É um projeto que vai mudar a história do humor cearense, aí você me pergunta se não é muita pretensão minha. Eu digo: não. Esse projeto vai levar os estudantes para dentro do Museu, nós já temos um ônibus; estudantes das escolas particulares levariam 1 kg de alimento para doação, das escolas públicas não precisariam levar. Mas isso tem um custo e estamos vendo esse custo. Esse é o projeto da minha vida, é superior ao FHC e aos meus livros, apesar do amor que sinto por todos eles, porque esse projeto beneficia os estudantes de Fortaleza e arredores.

Foto: Jan Messias

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