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A Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza conta com uma equipe de 881 funcionários, entre técnicos, servidores, bolsistas, cargos comissionados e terceirizados. Entre todos eles, apenas um está com uma máquina fotográfica nas mãos – é Cláudia Marques, clicando – clic – clic – clic…

Nascida em 10 de novembro de 1968, na pequena localidade de Riacho Seco, que fica na Bacia do Alto Jaguaribe – interior do Ceará–, veio para a capital com apenas três anos, sendo a caçula de onze irmãos – cada irmão ou irmã ao entrar na idade para estudar era enviado para a casa de uma irmã ou irmão, do pai ou da mãe, que vivesse em um local onde havia escola. “Claudinha”, como é chamada por amigos e queridos, era uma menina de olhar curioso, que simplesmente sonhava em ser alguém.

Na sala da Assessoria de Imprensa, ao telefone, ela fala com o chefe dos motoristas:

– Claudiano, tem carro aí para eu ir lá no gabinete da prefeita? … Obrigada, eu já vou descer.

– Gente, eu vou lá no gabinete da prefeita, avisa Claudinha, que sai sorrindo.

Com 54,5kgs distribuídos proporcionalmente em 1,57 de altura, roupas de mulher e corpo de colegial, Claudinha é gentil, uma pessoa de bom gosto que sabe combinar bem as cores do dia, as tonalidades das conversas – com ela, nada parece estar em desacordo ou fora do lugar. Concentrada na frente do computador, ela é capaz de ficar por horas – se os afazeres na Secretaria deixassem – organizando suas fotos na pasta que lhe pertence no servidor. Já visitou a trabalho grande parte das escolas públicas da rede municipal, o que lhe despertou um talento: de prontidão, sabe dizer a qual das seis regionais cada uma das 428 unidades escolares pertence. Com a câmera empunhada, ela parece saber o que está fazendo diante do objeto a ser fotografado.

Clic – Clic – Clic…

Almejando uma vida melhor e visando reunir as crianças – já bastava para Seu Alcides ver os filhos sendo criados por terceiros –, o pai de Claudinha vendeu a fazenda que tinha gado e açude e mudou para a cidade grande ao lado da esposa e dos quatro meninos e sete meninas, mais um saco de farinha cheio de dinheiro, que foi todo roubado por um investidor golpista que investiu tudo em favor dele próprio. A família Cândido ficou sem nada. Passaram a depender da ajuda de parentes e do dinheiro que passou a entrar pelas mãos das crias mais velhas – Francisco, Graça, Zenilda e Genésio –, que sem outra saída tiveram de enfrentar precocemente o mercado de trabalho. E Dona Maria, que deixara a produção de queijos na fazenda, passou a costurar para fora, e também para os descendentes. Foi por meio da máquina de costurar da mãe que Claudinha, aos treze anos, pode usar seu primeiro jeans, e também biquíni, shorts – “ela fazia tudo”, recorda.

Dançando por meio de Fotografias

No início de 1984, as coisas começaram a melhorar para os Cândido e Claudinha entrou numa escola de dança, com o apoio financeiro de uma irmã, Alcimar, que havia arranjado um emprego no antigo BEC – “Foi ela quem comprou uma televisão lá para casa, que até então não tínhamos”. Numa oportunidade, a dançarina e coreógrafa Dora Andrade viu a adolescente dançar e a convidou para participar de um grupo que ela estava formando com a finalidade de se apresentar em festivais. Ela aceitou e, dançando, conheceu João Pessoa, Teresina e no Recife seu grupo tirou o quarto lugar com o balé “As mães da Praça de Maio”.

Mas Claudinha só dançou por “um ano e meio, quase dois anos”. Era preciso trabalhar, de qualquer forma – “foi o jeito sair”. Logo, arrumou um emprego no Banco Mercantil de São Paulo, onde havia um gerente de regional que se encantou pelos olhos castanho-escuros e os cabelos de mesma cor da jovem Claudia – era Nelson, um pernambucano recém-chegado de Goiânia, com quem ela casou após um ano de namoro. Nelson era mais velho e a mãe, muito rígida, fazia marcação cerrada em cima dos dois. “Ele também viajava muito a trabalho, achamos melhor casar”, conta.

Casada, no religioso e no civil, se viu obrigada a deixar o cargo de auxiliar de escritório, já que o banco proibia a relação amorosa entre os funcionários e o esposo estava com a carreira consolidada. Com tempo disponível, a menina que sempre estudara em escola pública prestou vestibular para Pedagogia na Unifor e para sua surpresa, passou, mas não gostava do curso e trancou no quarto período. Preferia falar inglês no IBEU, onde estudou por cinco anos – “Fiz o que tinha vontade de fazer, mas não tinha condições financeiras”. Quando rememora os tempos de colégio, acredita não ter sido uma boa aluna, era “meio relaxada nos estudos”, não pensava grande, nem fazia planos.

Em 14 de março de 1993, seu mundo se transformou de vez com a chegada do primeiro e único filho, João Luis, que nasceu com problemas de saúde, aos sete meses de gestação. Hoje, um rapaz saudável – “uma rocha”, é o seu orgulho, merecedor de 5 medalhas na escola por bom desempenho em redação, desenho e poesia, e futuramente, de um carro:

– Meu filho vai fazer dezesseis, quando ele fizer dezoito – caso ele passe no vestibular – eu pretendo dar um carro antigo para ele, ele adora carro antigo.

Foi graças ao filho premiado que ela passou a “dar valor” a fotos e “se encontrou” na Fotografia – desde seu nascimento ela passou a clicá-lo em momentos que somam mais de 1.000 fotos. Inicialmente usava uma câmera manual compacta, yashica e por vezes uma polaróide. O estalo veio nas aulas de capoeira do rebento – “normalmente comigo as coisas acontecem assim, num estalo” – “eu quero poder tirar uma foto legal!”, pensou. Provavelmente por conta dos rápidos movimentos, as fotos do jogo de capoeira nunca saiam boas, era preciso aprender a técnica e principalmente a arte de fotografar. E foi o que ela decidiu ali, em meio a golpes e atabaques – entender de bater fotos.

Pouco tempo depois, ela estava passando no ônibus e viu um anúncio sobre um curso de fotografia na Casa Amarela Eusélio Oliveira, anotou o número do telefone e em seguida ligou em busca de mais informações, mais tarde foi lá e fez a inscrição. Foram dois meses de curso, entre aulas práticas e teóricas. O equipamento era precário e limitado – “eu dividia uma câmera com outra aluna”. Incentivada pelo professor Riomar, numa parceria com o amigo Chico Mota, fez as fotos do casamento da jornalista Paula Candice, posteriormente registrou os quinze anos da sobrinha e desde então passou a trabalhar como fotógrafa nos mais variados eventos, de batizados a aniversários de casamento, fazendo do boca a boca a sua forma de propaganda.

“Tudo tem um lado bom e um lado ruim”

No ano de 2006 o inesperado bateu à sua porta: o casamento com Nelson foi temporariamente desfeito, apesar de continuarem dividindo amigavelmente a mesma cama. Ela decidiu partir para um emprego fixo, já que o dinheiro que ganhava fotografando eventos não era suficiente, mas também porque “não tinha saco de sair vendendo seu produto”. Nessa época uma amiga da irmã que trabalha na SME comentou que havia uma vaga para fotógrafo na assessoria de imprensa. Por um desses eventos do destino que mais parecem ter sido escritos por um autor de novelas, a jornalista responsável pelo setor era a mesma para quem ela havia registrado as fotos de casamento no ano anterior – Paula Candice. Resultado: Claudinha foi prontamente contratada.

Foi no trabalho institucional com as crianças que a fotógrafa Cláudia Marques – profissionalmente ela adotou o sobrenome do cônjuge – sentiu-se realizada – “Criança você não manipula, a foto não fica artificial. O contato com a criança se faz porque ela gosta de você. Gosto da espontaneidade, com criança não tem regras, a qualquer momento chega uma e te fala: ‘tia, bate aqui’, sai foto de todo jeito”.

Passada a tempestade e reatado o matrimônio, casou-se pela segunda vez com Nelson, já que havia cancelado judicialmente a primeira união – “Tenho um defeito: sou impulsiva e quando tomo uma decisão, sou meio radical”, confessa. Apaixonada pelo marido, “aqui e acolá”, trabalham juntos – é ele quem faz a iluminação nos eventos que ela escolhe a dedo.

Em relação ao seu trabalho é bastante crítica: “Isso me prejudica muito, eu acho que a gente tem que ter meio termo em tudo”, revela. Devido a essa autocobrança não gosta de escolher as fotos que vão para o site da Secretaria ou são publicadas no Jornal da Educação. Talvez seja por essa razão que ainda não produziu um trabalho autoral – “pois acho que nunca está bom”. Mas tem planos de fazê-lo no futuro: “A gente sempre tá aprendendo. Eu sei que ainda tenho muito que aprender, o que eu quero na verdade é enxergar o meu trabalho de outra maneira”. Para isso, faz cursos de especialização sempre que pode e atualmente conta com uma câmera profissional digital Canon EOS 30D. Humilde, credita confiança às pessoas quando tem o seu trabalho elogiado – “deve ter um fundo de verdade”.

Os apreciadores da sua obra são, em sua maioria, funcionários da SME, onde eventualmente estão expostos seus retratos. As fotos do Projeto “Rua da Criança” – composto por atividades artísticas realizadas pelas crianças no entorno das escolas – deu origem à mostra “Brincantes”, que permaneceu por dois meses no andar térreo do prédio. Em seguida, foi revelada em imagens a identidade dos profissionais da Educação – merendeiras, agentes, diretores, professores. Em julho do ano passado, na Emeif Luis Recamonde Capelo, ocorreu o lançamento de uma exposição das fotos tiradas durante o Programa Escola Aberta – que abrange atividades de futsal, oficinas de artesanato, serigrafia, entre outras – e na época do Natal, os rostos infantis das creches municipais se transformaram em objetos da artista, numa exibição realizada no sétimo andar, bem ao lado do gabinete da Secretária. Atualmente está em cartaz, no mesmo local, a mostra Retratos da Educação – que apresenta crianças e também adultos em várias ações ocorridas nas escolas municipais.

Por trás das lentes

Claudinha gosta de retratar a vida como ela é, com ela não tem esquema. Fica chateada quando vê por aí colegas de profissão “preparando” as fotos: “Depois que inventaram a câmera digital, eles batem a foto de todo jeito e depois manipulam”. Justamente por essa razão, tem “adoração” pela obra de Sebastião Salgado – “você vê que ele capta o momento verdadeiro”. Pacífica, só perde a calma quando creditam o nome de outro fotógrafo às suas fotos, considera um desrespeito.

Embora goste do convívio com crianças, não é muito apegada. Mesmo com João Luis, nunca foi de fazer “gracinhas” como as outras mães. Crê que o que vale é ter passado noções corretas de valores como ética, honestidade, humildade – “fico satisfeita se ele tiver aprendido aquilo que eu aprendi com a minha mãe”. Claudinha não pensa mais em engravidar, mas junto com o companheiro pensa em algum momento adotar – “você tem que ter estrutura material para poder oferecer coisas boas ao filho”.

Nos finais de semana, ela dedica seu tempo à família. Está sempre de olho nos estudos do filho e comumente vai com Nelson até um barzinho tomar uma cervejinha e escutar música – “nada de televisão em bar”. Gosta das canções de Cássia Eller, sua favorita é Relicário, porém – “todas dela, eu gosto”. Também aprecia uma conversa – Claudinha é boa de papo –, mas, apesar da personalidade extrovertida, têm poucos amigos, as duas melhores amigas moram distante, quando se falam é por telefone.

Para a garota que na infância fantasiava ser aeromoça, a linguagem não-verbal da fotografia a faz voar por lugares que jamais pensou explorar. Com uma lente precisa e o olhar aguçado, suas fotos refletem a visão de seu mundo interior. Costumeiramente Claudinha está sempre descobrindo algo novo, que acaba a levando ao conhecimento real não apenas da imagem fotográfica, mas dela mesma.

 

*Foto: arquivo pessoal
*Texto de 2008

28 de novembro de 2015
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Relicário fotográfico: perfil Cláudia Marques

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