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Foto: Jan Messias

Raimundo Felipe Sobrinho, nascido no dia 08 de agosto de 1923, no Riacho Vermelho, hoje distrito do município de Iguatu, região Centro-Sul do Ceará. Até a idade de 18 anos viveu no meio rural, sendo filho do agricultor Jeremias Felipe de Melo e da dona de casa Ana Maria de Melo, que tiveram 14 filhos, sete homens e sete mulheres.

Na fazenda, dividia-se entre as aulas da professora encarregada de ensinar-lhe, e aos irmãos, as primeiras letras e as quatro operações, e os trabalhos na colheita e na criação de animais. Assim foi até o dia 30 de abril de 1941, quando Raimundo terminou mais uma limpa da roça, o inverno estava fraco, e despertou nele a vontade: “A colheita vai demorar” – era mês de abril, a colheita ia ser para outubro, novembro – “Eu vou pedir ao meu pai para estudar numa escola”. Tornar-se-ia o primeiro membro da família Felipe de Melo a sair de casa para estudar em uma escola fora.

A aula começava ao meio-dia, ele acordava de manhã cedo, ajudava a fazer as obrigações de casa, como todos, e depois do almoço, que era servido às 10h, pegava o cavalo e ia para a escola, distante da fazenda cerca de uma légua e meia. Durante seis meses estudou com a professora Maria Cruz, diplomada no Grupo Escolar Doutor Manoel Carlos de Gouveia, de Iguatu, que lhe cativou logo no primeiro dia de aula, ao sentar ao seu lado na sala, dando apoio. Quando comemorou 80 anos de idade, a docente compareceu à ocasião em Fortaleza para felicitá-lo.

Chamado interno
Coronel Jeremias acordava cedo, todos os filhos, chamando cada um pelo nome e delegando, a cada um, uma tarefa; nessa segunda-feira, início de novembro – as aulas haviam finalizado em 31 de outubro – Raimundo Felipe acordou com a ordem do pai: “Raimundo! Vá até a enxada, e vá limpar o mato da cana!”.

A disciplina o fez levantar àquela manhã. Aos 18 anos de idade, dono de si, Raimundo Felipe Sobrinho foi atrás da roupa de brim que há seis meses não vestia, para trabalhar na roça, vestiu a alpercata de couro cru, fabricação caseira, pegou o chapéu de palha, bateu a enxada, e saiu no rumo da lavoura. Quando chegou à plantação da cana de açúcar, que viu o carrapicho alto, cacheado, sentiu o pelo da cana, sentiu a formiga vermelha lhe mordendo, sentiu o sol quente arder na moleira, que faziam seis meses que estava na escola sem ir ao sol, ele fez o sinal da cruz. E lembrou-se das palavras da professora Maria Cruz em seu último dia de aula, antes das férias. “Ela mandou que os alunos fizessem uma pequena redação e que, cada um podia escolher o título da redação, eu peguei o caderno e escrevi umas 10 ou 15 linhas, e entreguei, aí, ela falou para mim baixo: ‘Dessa turma, você é o único que tem condições de continuar os estudos com sucesso, você aprende com facilidade e seus pais podem’ – ô palavra bonita, podem – ‘E você ainda está na idade de continuar os estudos, ela disse’. E ali, de frente ao mato que eu ia limpar de enxada, eu me lembrei dessas palavras, peguei a enxada e voltei para casa.”

Até então, não era permitido a Raimundo ou qualquer irmão seu dialogar com o pai – “porque o pai que conversasse com o filho, o filho que tivesse intimidade com o pai, enfraquecia a responsabilidade do pai, era a ideia que eles faziam”. Apesar disso, ele entendeu que já era maior de idade e que já podia ter uma conversa mais aberta com o progenitor. Ao ver o filho adentrar na residência, ‘Seu’ Jeremias não se assustou, ao invés, soltou a piada: “Já cansou?”.

O jovem permaneceu calado, pegou a roupa da escola e foi para o açude, tomou banho, vestiu o uniforme e foi sentar ao lado do pai no alpendre grande da casa da fazenda – estavam a sós. E de coração aberto, disse: “Meu pai, eu quero continuar os estudos na cidade”. Teve o silêncio como resposta. “Mas quem cala consente, não é?”, lembra Raimundo Felipe. No mês seguinte, ele conta, já estava assistindo às aulas no grupo escolar em Iguatu, onde permaneceu por quatro meses.

Nos caminhos da Educação
Era ano de seca, e, no mês de março, o professor se alistou em uma frente de trabalho emergencial do Governo. Raimundo e os colegas tiveram o auxílio de uma professora substituta; em junho, começaram a chegar à cidade, de férias, alunos do Ginásio do Crato, no Cariri, e havia entre eles um conhecido seu que se prontificou a falar com o coronel Jeremias para que ele lhe permitisse ir estudar no Ginásio. E assim Raimundo Felipe foi de Iguatu para o Crato e de lá para Fortaleza.
Dez anos depois retornava à cidade natal, trazendo na bagagem o diploma de cirurgião-dentista, da Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará. Trabalhou em consultório por cinco anos, dedicando-se cada dia mais à educação e seu poder transformador. Sendo ele exemplo vivo dessa experiência. Deu aulas e mais tarde foi diretor do Ginásio de Iguatu, o primeiro ginásio para rapazes da região Centro-Sul do Ceará. Em seguida dirigiu, por mais de trinta anos, o colégio Adahil Barreto, que se tornou referência no ensino na região à época, e que atualmente integra a rede de educação municipal.

Aposentado, vive com a esposa, Maria Teonila Araújo Felipe, professora também aposentada, na casa que construiu ao lado do Colégio quando era diretor, aproveitando os espaços ociosos do terreno. Em sua varanda arejada, o educador nos recebeu, a mim e ao repórter fotográfico Jan Messias, na tarde da última quarta-feira, 26, para conversarmos sobre passado e presente, educação e ensino, além do livro que lançou no último mês de maio, em que narra a sua trajetória de vida: Raimundo Felipe Sobrinho, Minha História Ontem e Hoje.

Jornal do Centro-Sul – O que fez o senhor deixar a odontologia para se dedicar exclusivamente à educação?
Raimundo Felipe – Eu não pedi para ser diretor do Ginásio de Iguatu. Eu já ensinava lá francês e ciências físicas e naturais, mas o meu nome nunca figurou na lista de pagamento, eu estava apenas contribuindo com o Ginásio, que estava começando; e quando ele entrou em crise, o Rotary Club de Iguatu me convidou para um jantar, eu não era rotariano, e me delegaram essa missão: “Vá para a direção do Ginásio, porque ele está em crise, e é o único da região Centro-Sul do Ceará”. Então eu cheguei com carta branca e baixei duas medidas de impacto: a primeira foi transformar em estabelecimento misto (para rapazes e moças), a segunda foi abrir para gregos e troianos, porque até então o Ginásio era de uma facção política, e o adversário não podia estudar lá, mas eu abri as portas; três diretores já tinham passado pela direção do Ginásio, que estava em crise, então, quando o Ginásio precisou do meu trabalho, eu me realizei com isso, me realizei mais como educador do que como odontólogo, lhe falo francamente. Não é que eu quisesse, é que a sociedade, o Rotary Club de Iguatu precisou do meu trabalho como diretor do Ginásio, eu fui e me dei bem, e tinham outros dentistas que podiam atender a clientela na cidade.

Jornal do Centro-Sul – Depois veio o colégio Adahil Barreto, que se tornou referência no ensino no município. Qual era o grande destaque do Colégio?
Raimundo Felipe – Os meus alunos terminavam o segundo grau aqui, faziam vestibular fora, depois de formados, voltavam para a cidade natal, médicos, advogados, dentistas, agrônomos e outros tantos; a cidade só cresce com educação, a cidade só se projeta se tiver colégio, se tiver faculdade, se tiver alguém interessado, e não é só interesse do aluno, mas do diretor, do professor, de quem está no comando da educação no colégio.

Jornal do Centro-Sul – O que é uma boa escola?
Raimundo Felipe – É o ambiente onde o aluno se sente bem, onde o professor trabalha feliz, não pelo ordenado, mas por amor à educação, então a escola é isso, é contar com professores desprendidos, contar com alunos que gostem do ambiente e o educador sentir que os seus alunos estão crescendo, estão se projetando, isso para mim é uma boa escola, é quando o ambiente é bom para o educando e ao mesmo tempo é bom para o educador.

Jornal do Centro-Sul – Hoje é muito comum de as escolas adotarem o ensino em tempo integral. O senhor é favor dessa modalidade de aprendizado?
Raimundo Felipe – Eu sou a favor. Especialmente porque hoje há muita droga; no integral o aluno vai ficar oito horas, vai ficar mais tempo na escola do que em casa. Na minha época, o aluno ficava quatro horas na escola e ficava o restante do tempo com os pais fora da escola, e quando o pai pensava que a responsabilidade era toda da escola, a responsabilidade maior estava com os pais, porque o aluno ficava mais com os pais do que com a escola. Então, eu sou pela educação integral, quanto mais tempo você deixar o aluno na escola, mais ele aprende, e evita sair de lá para outras atividades que não são proveitosas.

Jornal do Centro-Sul – Qual o papel da educação nas nossas vidas?
Raimundo Felipe – É tudo. O mundo é de quem sabe ler, se você não soubesse ler, você não estaria me entrevistando. O Ginásio de Iguatu foi o primeiro passo, hoje, já estamos com universidades, aqui as faculdades ainda não estão completas, falta engenharia, falta medicina, em toda universidade, medicina é o carro chefe, e nós estamos importando médicos, o Brasil está precisando de médicos, nós estamos precisando de uma faculdade de medicina em Iguatu.

Jornal do Centro-Sul – Hoje, muitas vezes, o professor percebe certa dificuldade em fazer com que o aluno se interesse pela aula. O senhor tem alguma fórmula para fazer com que o aluno sinta interesse em aprender?
Raimundo Felipe – Na minha época, a coisa mais importante na escola era a disciplina. Era o respeito. O professor respeitava o aluno e o aluno respeitava o professor. Era um ambiente familiar, não tinha o aluno rebelde, era o jovem que se adaptava ao regime da escola e tratava o professor bem, e era bem tratado da mesma forma, mas hoje não se vê muito isso, hoje, na escola, parece que o educando que tem mais força e mais direitos que o educador.

Jornal do Centro-Sul – O senhor foi vereador e candidato a vice-prefeito de Iguatu, o que o levou a política? Raimundo Felipe – Você trabalhando com a juventude, aqui e acolá, você sente uma vontadezinha de fazer o que outros estão fazendo, ser prefeito, deputado. No meio estudantil havia muito movimento, e através dos meus alunos é que eu acabei sendo vereador, no primeiro ano na direção do Ginásio, me elegeram vereador, o vereador naquela época não era remunerado, você fazia votos de pobreza para ser vereador, não ganhava nada, trabalhava do mesmo jeito que trabalhava hoje, mas não ganhava nada, então, eu fui vereador porque os meus alunos me elegeram. Eu não dei um passo nem pedi um voto, quando abriram as urnas eu estava eleito, quer dizer, quando você faz alguma coisa pelo povo, não precisa comprar voto.

Jornal do Centro-Sul – O senhor já escreveu alguns livros no campo da historiografia. Considera-se também um historiador?
Raimundo Felipe – Não.

Jornal do Centro-Sul – Um escritor?
Raimundo Felipe – Não. Fizemos o primeiro sobre os cinquenta anos do colégio Adahil Barreto. Eu escrevi alguns textos, e fundadores, professores e ex-alunos completaram o livro, quer dizer, foi um livro que eu contei com colaboradores; o segundo foi o que escrevi sobre a minha história; o terceiro, apenas um fascículo, que eu escrevi sobre a minha pessoa e sobre os meus treze irmãos, um (retrato) 3×4, não fiz uma biografia de cada um. O que eu vi em casa eu registrei.

Jornal do Centro-Sul – O senhor gosta, então, de registrar memórias. Qual a importância para cada um de nós de ter em mãos o registro da nossa própria história?
Raimundo Felipe – Eu tenho uma sobrinha que está fazendo a árvore genealógica da nossa família. O que eu escrevi até hoje daqui a mais algum tempo, se um filho ou um sobrinho ou um parente mais distante, quiser saber alguma coisa sobre o passado, pode dizer: “Ah, o meu tio, o meu antepassado, Raimundo Felipe Sobrinho, escreveu sobre ele e escreveu também sobre os irmãos dele, eu vou já atrás desse documento”. Então, se todas as famílias tivessem um membro que se interessasse em deixar um pouco da história, da árvore genealógica da família, estaria muito mais fácil para a minha sobrinha, que está fazendo essa árvore genealógica agora, e tem encontrado muita dificuldade. A importância esta nisso, em você escrever alguma coisa e deixar isso para a posteridade.

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