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Entrevista com a diretora da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Iguatu, Iêda Couras, para o Jornal do Centro-Sul.

Iêda Couras é diretora e uma das responsáveis pela fundação da Apae de Iguatu. É ainda presidente do Conselho Municipal do Direito da Pessoa com Deficiência. Frente ao diagnóstico de autismo do filho, hoje com 21 anos de idade, e da recusa da escola em recebê-lo na sala de aula, decidiu participar de forma mais efetiva no processo de inclusão das pessoas com deficiências, plantando a semente que fez nascer a Apae. Nesta entrevista, ela fala sobre o trabalho que realiza na entidade há mais de 15 anos, das dificuldades surgidas ao longo desse período e dos avanços no setor da inclusão na esfera municipal.

 

JORNAL DO CENTRO-SUL – Como se envolveu com a Apae?

IÊDA COURAS – Eu me vi numa situação difícil, meu filho precisava frequentar uma escola, e as escolas não aceitavam ele, então, eu comecei a frequentar a Apae de Icó, e passei a me perguntar como Icó tinha uma Apae e Iguatu não tinha? Eu imaginava que era algo muito difícil de trazer para Iguatu. Então conversei com o presidente de lá que me explicou que a Apae é uma associação de pais e amigos e que eu tinha que juntar esses pais e esse amigos para fundar uma Apae no município. Eu procurei a Secretaria de Saúde, que me mostrou quase 800 cadastros de pessoas com deficiência que viviam no Iguatu na época, em 1998. Eu peguei esses cadastros, os que estavam localizados no meu bairro, e saí de porta em porta convidando esses pais.

JORNAL DO CENTRO-SUL – E como foi esse começo?

IÊDA COURAS – Na época, Aderilo era secretario de Assistência Social, Hildernando era o prefeito. Eu tive contato com ele, que me ajudou bastante, depois veio a Lucia Elias, uma das mães, que se juntou com a gente. Pensei em convidar Assis Couras [empresário] para ser o primeiro presidente da Apae e para a nossa surpresa, no dia da posse, ele fez uma doação de 10 mil reais pra gente começar a “construir” a Apae de Iguatu, fundada no dia 25 de novembro de 1999, numa casa cedida pelo então presidente e dona Ivanilda, esposa dele, que hoje é a presidente, eles contribuem com a Apae até hoje. A prefeitura cedeu professores, nos ajudou a montar essa casa, deu ajuda de custo mensal para que a gente pudesse cumprir nossas despesas e começamos a funcionar com 45 alunos. Hoje, com 15 anos, a Apae atende quase 210 alunos da região, de Várzea Alegre, Tarrafas, Jucás, Cariús, Quixelô. Somos referência no Estado, a unica Apae do Ceará que tem uma Casa Lar, onde atendemos 15 idosos em tempo integral. Desenvolvemos, em parceria com o Instituto Federal (IFCE), um trabalho de ecoterapia, gratuito, com os alunos da Apae.

JORNAL DO CENTROS-SUL – Quais sãos os maiores desafios enfrentados pela Apae?

IÊDA COURAS – Temos parceria com a prefeitura que viabiliza o funcionamento e também com o Governo do Estado, sempre na cessão de pessoas para trabalhar na instituição; a prefeitura ainda faz um repasse de 1400 reais para ajudar nas despesas mensais; do Governo Federal, através do PDDE [Programa Dinheiro Direto na Escola] recebemos anualmente cerca de 3 mil, é pouco mas é um recurso importante. A própria instituição desenvolve campanhas para arrecadar dinheiro porque a Apae se transformou numa casa grande onde eu tenho uma equipe de trabalho de quase 70 funcionários, e eu preciso manter essa casa funcionando, eu tenho despesas todo mês, uma folha de pagamento de 8 funcionários, energia, água, combustível, é uma despesa muito grande, a instituição cresce, crescem as despesas e a captação de recursos tem que crescer junto. Então o desafio maior é manter a instituição funcionando com toda essa demanda porque a Apae é uma instituição que trabalha com a qualidade do seu serviço. Temos o desafio, cada vez mais, de desenvolver eventos para que a sociedade possa fazer a parte dela entendendo a importância dessa instituição para o município e, juntos, a gente possa manter a instituição funcionando. Nesses 15 anos, a gente percebe que as pessoas ajudam a Apae, mas elas não se aproximam da instituição, elas não têm conhecimento do trabalho que a instituição desenvolve; a gente sente um pouco de distância nesse sentido, de a sociedade vir até a instituição ou de a instituição fazer um evento e ela não participar.

JORNAL DO CENTRO-SUL – De onde vêm os recursos para manter a Apae?

IÊDA COURAS – Dos eventos que promovemos, das campanhas que a Apae realiza, temos a “Apae Água”, em pareceria como o SAAE [Serviço Autônomo de Água e Esgoto de iguatu], em que as pessoas recebem uma visita de um pesquisador da Apae e são convidadas a contribuir com a instituição através da conta de água; a “Apae Energia”, uma parceria que nós temos com a Federação das Apaes Estadual. A campanha “sua nota vale dinheiro”, o cupom fiscal que as pessoas doam é muito importante. Temos alguns padrinhos que colaboram mensalmente, e temos a mensalidade dos sócios, a maioria familiares, mas nem todos os pais colaboram, só colaboram aqueles que realmente têm condições de colaborar, a gente tem esse entendimento.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Que tipos de deficiências a Apae atende?

IÊDA COURAS – São quase 2500 Apaes no Brasil que atendem pessoas com deficiência intelectual e múltipla. A Apae de Iguatu tem um diferencial, pois muitas deficiências não são atendidas pelo município e a Apae acaba acolhendo essas pessoas, como por exemplo, doença mental, se essa pessoa tiver um comportamento que dê pra ficar na instituição, a gente acolhe. Uma demanda grande hoje são as pessoas com autismo, temos um trabalho diferenciado para essas pessoas, trabalhamos com o método TEACCH. Atendemos desde a educação precoce, de 0 a 3 anos, até a idade de 70 anos que são as pessoas que são atendidas pela “Casa Lar”. A Apae pode permanecer até o fim da vida, isso de certa forma dá uma tranquilidade maior para as famílias nesse sentido de que ela acolhe as pessoas com deficiência desde o nascimento até a velhice, essa é justamente a missão da instituição: foco na qualidade de vida da pessoa com deficiência desde o nascimento.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Quais são os avanços no setor da inclusão em Iguatu e como a Apae tem contribuído?

IÊDA COURAS – A gente tem entendimento de que o nosso país, quando a pauta é a garantia de direitos de políticas públicas para as pessoas com deficiência a legislação é fantástica. Iguatu não está fora desse contexto, a gente tem sentido isso, principalmente na educação. Outras áreas têm muito a avançar ainda. Iguatu já oferece atendimento especializado no CEO [Centro Especializado de Odontologia]. Na educação tem a garantia da matrícula, mas sabemos que tem o desafio da permanência na escola, a gente precisa ver isso funcionando melhor, e a Apae tem colaborado com a sistematização dessa inclusão, fazendo formações; realizamos cursos de educação inclusiva certificados pela UECE [Universidade Estadual do Ceará], na rede pública e particular durante 5 anos. Há uns 2 anos tivemos uma parceria com a Petrobrás e realizamos uma especialização em educação especial para os professores do município, totalmente gratuita, em parceria também com a UECE. Ano passado aconteceram várias formações, entre elas a formação em tecnologia assistiva para os professores saberem trabalhar melhor com computador. Em parceria com o Criança Esperança, através da Unesco, tivemos um projeto selecionado e ano passado tivemos uma capacitação com duas turmas de professores aqui em Iguatu. A Secretaria de Educação tem feito, na medida do possível, ações que colaboram para a garantia dessa inclusão. Recentemente o Sesc ofereceu um curso de autismo aos professores. Iguatu tem se preocupado com essa questão das pessoas com deficiência, pensando nessa garantia da escola e outros aspectos, a escola tem conversado bastante com professores, tem disponibilizado bolsistas para ajudar os professore nas salas para garantir a permanência desses alunos com deficiência na escola. Então a gente pode dizer que Iguatu está de parabéns nesse sentido. Temos dois alunos aqui da Apae com autismo e três com deficiência intelectual no ensino médio, e eles têm estado bem, às vezes com dificuldade, pois o professor não está preparado, mas tem a vontade e está buscando conhecimento para desenvolver o trabalho.

JORNAL DO CENTRO-SUL – O iguatuense é preconceituoso com os deficientes?

IÊDA COURAS – Outro dia ouvi alguém dizer que parece que “está nascendo mais pessoas com deficiência”. Eu disse não, hoje elas saem mais de casa, hoje temos a oportunidade de conviver mais com as pessoas com deficiência. A Apae de Iguatu trouxe isso. A gente encontra pessoas com deficiência em todos os espaços e eu acho que essa questão do preconceito realmente é pela não convivência, quando elas passam a conviver com a pessoa com deficiência elas mudam todo o seu posicionamento. A nossa cultura em relação às pessoas com deficiência traz toda uma bagagem negativa, mas a convivência faz com que a gente esqueça essa bagagem negativa e saiba a importância que é conviver com essas pessoas com deficiência. Iguatu cresceu bastante nesse sentido. Os alunos que fazem parte da Apae são tratados com respeito em nosso município, muitos deles trabalham, casaram, constituíram família, isso foi uma conquista. Há alunos da Apae trabalhando na Dakota, no Super Lagoa, temos atletas que participam de campeonatos, inclusive fora do Estado, muitas vezes em modalidades que nem são para deficientes, mas eles vão e eles ganham porque estão determinados. A sociedade já enxerga essa pessoas com potencialidade e as pessoas com deficiência precisam de oportunidade para mostrar o seu potencial no trabalho, na escola.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Que profissionais atuam na Apae? Há voluntários na instituição?

IÊDA COURAS – A maior parte dos funcionários é formada de pedagogos, de professores. As Apaes no Ceará são mantenedoras de um centro de atendimento educacional especializado, fazendo trabalhos que complementam e suplementam o trabalho na escola. Temos também assistente social, terapeuta ocupacional, psicólogos, dois residentes de psiquiatria e uma fisioterapeuta, através de parceria com o município, que está na ecoterapia, e outros profissionais que colaboram com a gente na realização dos serviços. A diretoria executiva é formada por pais, e por amigos, todos voluntários; muita gente vem, faz o cadastro de voluntário e deixa de fazer o trabalho, a gente está sempre recebendo, mas é um processo dinâmico, de mudanças, as pessoas vêm, passam um tempo, depois chegam outros.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Como se dá o ingresso na Apae? Antes de ingressar na Apae, a criança passa por triagem?

IÊDA COURAS – Sim. As pessoas marcam uma triagem e depois dessa triagem você avalia se esse aluno tem deficiência intelectual ou múltipla; encaminhamos esse aluno para a matrícula e ele já começa a frequentar, essa frequência pode ser todo dia, duas vezes por semana, vai depender da disponibilidade da família, da vontade. Quanto maior a frequência, maior vai ser a intervenção e melhor vai ser o prognóstico.

JORNAL DO CENTRO-SUL – A entidade dá algum suporte para os pais também?

IÊDA COURAS – A Apae tem tido esse cuidado de fazer seminários para explicar sobre as deficiências dos filhos, orientar os pais em relação aos direitos que eles têm. A partir do próximo ano, vamos atrelar a matricula da Apae à matrícula da escola regular, pois a gente entende que essa pessoa precisa ir para a escola.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Como mãe de um autista, houve algum momento difícil o qual a senhora chegou a duvidar da eficácia da ‘educação inclusiva’?

IÊDA COURAS – Eu senti. Eu não tinha conhecimento do meu direto, a gente procurava a escola, a escola dizia que não estava preparada, o discurso era esse. Hoje é diferente, independente do comprometimento da deficiência da criança a família sabe que tem que procurar a escola mais próxima de sua residência, e a escola já tem consciência de que não pode negar essa matrícula. A gente ainda fica meio angustiada com relação à qualidade da educação que está sendo oferecida para as pessoas com deficiência. Será que essa educação está acontecendo verdadeiramente? Será que a pessoa vai se socializar? A pessoa com deficiência tem que estar na escola para aprender. E essa aprendizagem tem que ser adequada a essa pessoa com deficiência. Inclusão é isso. Eu acho que cabe muito à família de acompanhar, a inclusão vai de acordo com a assistência também da família, o que ela está enxergando que está dando certo, e o que não está dando, para ajudar os professores. É fazer a parte enquanto família. Não é só responsabilidade da escola. A gente não pode querer que ele seja incluído na sociedade, enquanto ele não é incluído nem mesmo na família. É uma continuidade: inclusão na família – inclusão na escola – inclusão na sociedade. É necessário que essas três instâncias funcionem muito bem para que a inclusão de fato aconteça.

Foto: Jan Messias

*Entrevista publicada em 2015

31 de julho de 2015
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Entrevista: Iêda Couras fala sobre o trabalho à frente da Apae de Iguatu

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