O bom pastor: dom Edson de Castro Homem

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Entrevista com dom Edson de Castro Homem, bispo da diocese de Iguatu (CE), para o Jornal do Centro-Sul.

Fruto do amor entre o português Lazaré Andrade Homem e a mineira Maria Hercília de Castro, o carioca nascido em 17 de abril de 1949, Edson de Castro Homem, tem sua história ligada à Igreja desde a adolescência, quando era aluno do colégio Salesiano, no bairro do Riachuelo, na capital fluminense. Ingressou no seminário no ano de 1964. Ordenou-se sacerdote em 18 de outubro de 1977. Bispo auxiliar do Rio, foi nomeado, em 6 de maio deste ano, pelo papa Francisco, bispo da Diocese de Iguatu (CE). Na entrevista que segue, Dom Edson fala sobre os desafios à frente da Diocese, além de compartilhar sua formação eclesiástica, ideias e opiniões.

 

JORNAL DO CENTRO-SUL – Gostaria que o senhor falasse como despertou a sua vocação. Havia alguma referência, algum religioso na família?

Dom Edson – Não, não havia. Foi depois que eu fiz a primeira comunhão. Eu dizia que queria ser igual ao padre Nelson, que era um salesiano, então eu fui estudar com os salesianos, e só cresceu dentro de mim a certeza de que eu ia ser padre. Padre e professor, até por conta dos salesianos, que são professores.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Nos tempos de seminário o senhor chegou a ter alguma dúvida se seguia ou não na vida religiosa?

Dom Edson – Sim, por conta de um padre, com quem eu tinha uma indisposição, ele era disciplinador, hoje eu valorizo muito esse padre, porque eu tenho a certeza de que se eu estivesse em casa, eu ia brigar com meu pai, com a minha mãe, por causa da idade. Então, eu tinha que brigar mesmo com o disciplinador. Eu cheguei a ter a certeza que ia sair, não queria mais ser padre. Nesse ínterim, mudou a direção, entrou dom Assis Lopes, que por sinal hoje é bispo emérito, e ele fez com que eu novamente despertasse com um desejo forte.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Como foi sua formação religiosa?

Dom Edson – Do Seminário Diocesano São José, no Rio de Janeiro, fiz filosofia na PUC [Pontifícia Universidade Católica], e foi muito bom, pois foi um período onde havia muita ebulição, de ideias, divergências, não só dentro da universidade, mas também do pensamento da época. Eu tive mais contato com a filosofia contemporânea da época, moderna, como era chamada, do que com a filosofia medieval. Quando fui fazer teologia na PUC, estava já a teologia marcada pela renovação familiar com a presença de vários teólogos que conheciam a filosofia moderna e estavam em diálogo com esses pensamentos até contraditórios. Foi uma graça ter estudado na PUC. Então eu fui mandado por dom Eugênio para estudar na Gregoriana [Pontifícia Universidade], em Roma, ele queria que eu trabalhasse no seminário, quando eu fui ordenado padre, ele disse: você será padre formador de padres. Então eu fiz teologia espiritual para ser diretor espiritual no seminário. Quando eu voltei de Roma, ele me convenceu a ser disciplinador, mas foi por pouco tempo, pois ele criou o Instituto Superior de Teologia e me pôs como diretor desse Instituto. Depois eu fiquei adoentado, tive um pólipo na garganta, foi quando decidi retomar os estudos fazendo um mestrado em filosofia, na UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro], e depois fiz um doutorado na mesma universidade.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Enquanto o senhor estudava também atuava na vida religiosa?

Dom Edson – Atuava, fui pároco em varias paróquias no Rio de Janeiro, sempre dando aula, então fui padre e professor, como eu gostaria de ter sido. Até que veio a nomeação para ser bispo auxiliar e agora para ser bispo da diocese de Iguatu.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Como foi o período como bispo auxiliar no Rio de Janeiro?

Dom Edson – Foram 10 anos. Eu fiquei primeiro com o vicariato urbano do centro da cidade, depois com o urbano de Jacarepaguá, e posteriormente só com o de Jacarepaguá. Trabalhei com os diáconos permanentes e participei de várias atividades que são as diversas pastorais, na parte da cultura, as crismas, visitas pastorais e tudo o que faz um bispo auxiliar.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Como foi receber a notícia da sua nomeação pelo papa?

Dom Edson – Eu gostei imensamente. Fiquei muito feliz porque eu queria realmente ter uma diocese. Isso aqui é um presente.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Já conhecia o Ceará?

Dom Edson – Só Fortaleza. Já tinha ouvido falar, da cultura, do Padre Cícero, do Cariri. Interessante que as principais cidades eu conhecia de ouvir falar, mas nunca tinha ouvido a expressão Iguatu na minha vida e vim pra cá e me enamorei, estou apaixonado pela cidade, pelo que eu estou vendo, pela população.

JORNAL DO CENTRO-SUL – O senhor esteve aqui visitando a região no mês de maio. Fez algum diagnóstico?

Dom Edson – Vim para conhecer a diocese, a parte interna, número de padres, fui ao prédio do seminário, à Cúria, ao diocesano, me surpreendi com o hotel; visitei a residência episcopal, a catedral. Pode dar a impressão de que foi mais uma visita aos prédios, mas os prédios estão ligados a determinados serviços, eles são importantes não enquanto prédios, mas porque estão ligados a determinados serviços. Eu percebi que a diocese é bem organizada, padre Lázaro, o administrador diocesano, detalhou a parte econômica, administrativa, pastoral, são várias dimensões. Não senti nada de insatisfatório, incorreto, então eu disse: eu estou recebendo um presente. Até agora não me apresentaram nada de inadequado.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Qual a sua expectativa com relação a esse momento que está vivendo?

Dom Edson – A expectativa é de que vai tudo dar certo, eu não posso ter pensamentos nebulosos, tem que ser igual ao Ceará: todo dia tem sol (risos). Então eu estou num clima de aurora, o sol se não veio, ainda está lá vindo. E eu estou todo aberto e já estou sendo bastante feliz, digo de coração, tanto que você vê que eu estou rindo agora, dizem que rico ri à toa, eu me sinto muito agraciado.

 JORNAL DO CENTRO-SUL – O senhor já definiu uma linha de atuação?

Dom edson – Eu ontem conversei com o clero e foi muito bom, foi uma conversa franca, conversa leal, eu disse a eles: eu não vou mudar nada a não ser o vigário geral, que é um cargo de confiança, outros cargos de confiança vão ficar, até porque eu não conheço ninguém. O padre Lázaro foi escolhido como administrador do diocesano e é um padre jovem, isso significa que ele tem liderança, então ele pode muito bem me ajudar, eu disse a ele que ele seria meu conselheiro, então foi uma escolha estratégica. Aos poucos as metas vão sendo feitas, porque as metas já existem, eu encontrei já o plano de pastoral que vai terminar neste ano de 2015, as metas são boas e quem sabe elas podem ser as mesmas, com um ou outro retoque para o próximo triênio, eu ainda tenho que me reunir com outros grupos, o conselho de pastoral, presbiteral e o colégio dos consultores, as reuniões são várias.

JORNAL DO CENTRO-SUL – O que o senhor achou da recepção dos fiéis?

Dom edson – Eu sabia que iria entrar em carro aberto mas não sabia que seria dessa magnitude, a missa foi muito bem preparada, nada estava fora do lugar. Eu gostaria de acentuar a presença das autoridades, foi muita delicadeza da parte do município e também do governo do estado que mandou representante, o governador disse que vinha, mas por conta de um problema não pôde vir, estavam o prefeito, o senador da república. Tudo isso é muito bom, esse contato já de imediato com aqueles que são representantes do povo, que cuidam do bem público. Eu gostaria de acentuar também a boa comida, o baiao de dois, entre outras especiarias.

JORNAL DO CENTRO-SUL – A diocese de Iguatu foi fundada em janeiro de 1961 e tem uma dimensão territorial de 29 mil quilômetros quadrados, contendo 19 municípios e 26 paróquias, abrigando ainda 17 congregações. Esses números que falei o intimidam?

Dom Edson – Não me intimidam mas me desafiam. Como é que eu vou até o final do ano, que é um tempo curto, visitar todas as paróquias, fazer as visitas pastorais às comunidades? Há paróquias distantes, comunidades mais pobres, de base, eu ja marquei de ir numa mais distante e mais pobre, vou começar pelas mais distantes e mais pobres.

JORNAL DO CENTRO-SUL – o que o senhor espera do fiel cearense?

Dom Edson – Que seja católico e fiel (risos). Que não perca de vista esse substrato cultural católico do Ceará, não se pode compreender o Ceará sem esse substrato católico que ele tem, isso é um grande valor, a religiosidade, a piedade popular, isso tem que ser mantido, é isso que dá força ao povo, sobretudo ao pobre.

JORNAL DO CENTRO-SUL – E quanto a juventude, como espera trazer o jovem para a Igreja?

Dom Edson – A juventude é um desafio, a vantagem é que é um período muito rápido. Aqueles jovens que têm mais ligação com a igreja, esperamos que eles recebam aquilo que a igreja dá e pode dar, que é Deus, isso é que é fundamental. Todo o resto é muito importante, mas outras pessoas podem dar e as outras instituições podem dar de forma melhor. Escolas, saúde, a Justiça, então, a Igreja dá valores também, valores sociais, mas, sobretudo Deus, o papa tem dito por várias vezes que a igreja nao é uma ONG [Organização não governamental], não pode a igreja querer substituir o estado.

JORNAL DO CENTRO-SUL – como avalia a atuação do papa?

Dom Edson – É um papa extraordinário porque é um papa com os pés no chão, e agora com essa encíclica sobre a ecologia ele vem reforçar esse elemento: cuidar da natureza.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Aproveitando essa questão da encíclica papal tratando da ecologia, aqui em Iguatu e a diocese como um todo é cortada pelo rio Jaguaribe, que recebe o título de maior rio seco do mundo. Como a igreja pode atuar no sentido da preservação desse rio ou do cuidado em relação a essa parte ambiental?

Dom Edson – É complicado, mas creio que é necessário trabalhar na linha da educação. Não sujar as águas, não desperdiçar, não sujar, existe uma pastoral das águas, há uma preocupação quanto a essas iniciativas e que não são recentes. Existem os 10 mandamentos ecológicos do padre Cícero, não queimar a terra, plantar uma árvore, que é uma mentalidade muito simples, da época, tem que ensinar o povo a fazer o que pode ser feito e não ficar aguardando das autoridades grandes projetos como desviar as águas do rio São Francisco. É possível fazer dentro do próprio terreiro, digamos assim, algo que preserve aquele bioma.

JORNAL DO CENTRO-SUL – A campanha da fraternidade desse ano traz o lema “Eu vim para servir”. Como o senhor encara essa campanha e como a visualiza dentro da diocese do Iguatu?

Dom Edson – Dentro da diocese, eu estou chegando, eu não sei como ela foi trabalhada, mas a ideia do servir é para se mudar a mentalidade. Colocar-se à disposição da sociedade, da igreja, dos outros, essa é que é a idea, a frase aliás é de Jesus: eu vim para servir. Tem que pensar a sociedade a serviço dele, isso vale para todas as esferas, não só no mundo da igreja, mas também fora, porque a campanha da fraternidade é uma forma de diálogo da igreja com a sociedade, apresenta sempre temas que tocam a sociedade como um todo, independente da ideologia, da religião, ela não é uma campanha só para católicos, senão não seria da fraternidade. Cada um deve avaliar em seu espaço, profissão, competências, onde pode e deve servir melhor.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Gostaria que o senhor pontuasse sua posição a respeito do aborto, do casamento gay e da redução da maioridade penal.

Dom Edson – O fato é que verdadeiramente há menores que estão cometendo crimes de grande magnitude, então deveria haver uma revisão do código que contemplasse a penalidade para determinados crimes. O problema que eu vejo é que tem que se debater sobre as ações sócio-educativas, não basta se fazer a redução, é preciso melhorar esse sistema prisional, qualitativamente, pois está se lidando com a juventude, que é vitima. Esses jovens que vão para o crime têm uma história anterior de grande dificuldade, às vezes, não conhece o pai, a mãe que tem três, quatro filhos, não têm estrutura familiar, são espancados, preferem ficar na rua do que em casa, é uma situação complexa, quando a gente vai visitar essas casas, elas não são como deveriam ser de acordo com estatuto. Então para avaliar realmente este estatuto da criança e do adolescente, teria que ter havido o cumprimento dessa legislação em todos os seus aspectos, para dizer que se falhou não foi por conta da idade, mas do sistema que não educou, que não favorece a educação. Quanto ao aborto, para que matar um ser inocente? Não vejo nenhuma razão, as feministas dizem que são donas do próprio corpo, mas não se trata do corpo delas, e sim de outra pessoa em formação. Do ponto de vista ético, não vejo nenhuma razão para justificar o aborto. Com relação ao casamento gay, para mim, o casamento está ligado a um homem e uma mulher, outra coisa é um relacionamento gay, enfim, os dois podem se amar, como são, eu respeito, não entro no mérito na discussão, é como disse o papa, “se vocês quiserem se aproximar de Deus, não cabe a mim atrapalhar, impedir”. Mas o casamento é entre homem e mulher, não vejo outra possibilidade. O problema está no termo, a palavra união instável talvez seja mais adequada, casamento, matrimônio não, matrimônio supõe a formação de uma família, família supõe um homem e uma mulher.

JORNAL DO CENTRO-SUL – E quanto a adoção por casais homoafetivos? O senhor concorda?

Dom Edson – É uma questão nova, que está aí, mas que não compete a mim dizer se está certo ou errado, a sociedade há de averiguar e aceitar e pela lei determinar em que sentido ou não é valida. No entanto me parece que aqueles que não têm um lar, pai e mãe, mereceriam tê-lo. Seria melhor que um pai e uma mãe assumissem. Agora, essa nova configuração trará problemas, como já traz, ter dois pais, duas mães, por isso que alguns chamam isso de ditadura do diferente, de querer impor o diferente, não é fácil, são novos tempos.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Qual o seu nível de intimidade com a tecnologia? Participa das redes sociais? É contra ou a favor do uso por religiosos?

Dom Edson – Eu uso, não tenho problemas com a tecnologia, mas como tudo na vida, tem o seu lado positivo e negativo, muita coisa é veiculda de forma mentirosa, existe o crime de denegrir o outro, expor situações que não são adequadas, falsificando imagens, palavras. É claro que é um campo muito bom para a educação, pois o aprendizado é facilitado. Por outro lado, a família precisa estar mais atenta ao que os filhos veem, alguns até dizem que o aparelho tem que estar na sala e não no quarto para que se tenha a percepção do que a criança está vendo. A gente não pode fugir dessa realidade da vida, direito e ética são sempre necessários.

JORNAL DO CENTRO-SUL – Dom Edson, o Jornal do Centro-Sul deseja muitas bênçãos na sua nova missão à frente da Diocese. Gostaria que o senhor deixasse sua mensagem aos leitores.

Dom Edson – Desejo aos leitores muita paz e que encontrem no veículo aquilo que esperam, notícias atualizadas, entretenimento, pois é sempre bom ler um jornal, apreciar o trabalho com as notícias, o editorial. Eu desejo que os redatores, entrevistadores e responsáveis pela publicação se sintam muito próximos, pois de fato gosto de ler jornal.

Foto: Jan Messias

*Entrevista publicada em 2015

Emmanuel Montenegro
Emmanuel Montenegro
É jornalista profissional desde 2008. Já foi assessor de imprensa, repórter online e de TV, redator publicitário. Pesquisa e escreve sobre histórias de vida e trajetórias empresariais desde os tempos da faculdade. Até que resolveu viver disso: fundou a Edições BPM, companhia dedicada à escrita de biografias, perfis e memórias de vida e de empresas.

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