Desenvolvimento, cooperação e coerência: Valdeci Ferreira

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Entrevista com o empresário Valdeci Ferreira, ex-vice-prefeito e ex-secretário de Agricultura e Pecuária de Iguatu, para o Jornal do Centro-Sul.

 

Nascido no município de Aparecida, na microrregião de Sousa, na Paraíba, Valdeci Ferreira de Souza chegou a Iguatu com a família aos sete anos de idade. Desde a juventude carrega dentro de si um sentimento forte de cooperativismo e associativismo que o fez fundar instituições como a CDL. É proprietário da ABF Construção Civil Comércio e Indústria, comércio constituído junto com os irmãos no centro da cidade, há 55 anos. Aos 77 anos de idade, o empresário traz na bagagem a experiência como ex-vice-prefeito e ex-secretário de Agricultura e Pecuária de Iguatu. Na entrevista que segue, ele, que tem o título de cidadão iguatuense, expressa sua opinião sobre política e desenvolvimento local e regional.

Jornal do Centro-Sul – O senhor foi um dos fundadores da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Iguatu.  Qual era a proposta inicial da instituição? E, hoje, ela vem cumprindo essa proposta? Valdeci – A CDL é uma entidade que congrega empresários lojistas com o objetivo de se unirem para desenvolver o trabalho no comércio; antes da CDL o concorrente era como se fosse um “intrigado”. Através da CDL veio o SPC [Serviço de Proteção ao Crédito], o que aproximou o empresariado dos colegas, que antigamente eram tratados como concorrentes. Foi uma iniciativa importante e cresceu muito no país, hoje a CDL é uma força muito grande, tem a federação em Fortaleza, a confederação nacional de lojistas, que tem milhares de associados. A CDL de Iguatu foi ideia do Clóvis Rolim, da C. Rolim, ele era presidente da federação, e o irmão dele, Adauto Rolim, tinha o Armazém Nordeste, então ele induziu o irmão para trabalhar no Clube de Dirigentes Lojistas, naquele tempo era chamado de clube. O Adauto foi o primeiro presidente. No começo não tinha um foco direto no comércio, cada um pagava um valor diferente de acordo com o tamanho do comércio, 10 anos depois, quando eu assumi a presidência, nós nivelamos esses valores, todo mundo pagava o mesmo valor pelas informações. Sugeri a entrada de sangue novo, de novos sócios, numa época em que a entidade estava sem “vida”, chegaram Sá, Edvane, Valmir e outros. Depois foi crescendo e hoje estamos com uma entidade autossuficiente, já fizemos convenção regional aqui em Iguatu, e estamos entre as primeiras CDL do Estado.

 Jornal do Centro-Sul – Enquanto comerciante qual avaliação o senhor faz do Iguatu de 20 anos atrás com o Iguatu de hoje?

Valdeci – A gente tem que reconhecer os avanços que Iguatu teve. Um dos primeiros avanços foi durante a administração do Elmo Moreno, ele foi prefeito de Iguatu e conseguiu muitos investimentos, através da ligação que ele tinha com o Virgílio Távora (governador), o estádio, a avenida Perimetral, o abatedouro público, uma série de investimentos importantes. Houve a fase de Hildernando, que não foi uma fase dinâmica em termos de desenvolvimento físico, mas houve um trabalho educativo, até o discurso da campanha era de uma forma educativa; fizemos um trabalho muito bom à época. Vieram outros prefeitos que praticamente não trouxeram inovação. Agora, ninguém pode deixar de reconhecer que Agenor Neto assumiu a prefeitura e fez coisas que nenhum prefeito anterior fez, podemos enumerar muitas coisas que ele fez principalmente obra, deu apoio à educação, agricultura, aos esportes. Eu vejo aqui no Iguatu a necessidade de uma arrumação, no sentido de atrair quem está lá fora; pode fazer asfalto pra sítio, obras melhorando o aspecto da cidade para quem chega de fora, que acha bonito, mas isso não vale nada. Não sou contra se fazer isso, mas não atrai ninguém de fora, isso não vale nada, é bom pra quem mora na cidade, é ótimo, mas eu sou a favor que a política, os administradores, eles olhem para o Iguatu. Procure equiparar o Iguatu com cidades até de porte menor que a gente vê o desenvolvimento, o trabalho para trazer gente de fora, criando estrutura para isso. Até levei essa questão do desenvolvimento para discutir na CDL. Estamos numa região privilegiada, são 400 mil habitantes, levando em consideração a região que nos cerca. Você tem energia trifásica em todo o Interior, tem água de subsolo, que pouquíssimas cidades têm, e muita água de superfície, de açudes como o Trussu, isso pouco está sendo aproveitado.

Jornal do Centro-Sul – Em que a cidade precisa avançar, quais setores carecem de maior atenção?

Valdeci – A ideia que eu tenho é que para o desenvolvimento do Iguatu, o mais importante seria trazer um campus da Universidade Federal, que pode privilegiar as famílias que moram no Iguatu, como também trazer as famílias de outras regiões. A Educação seria a base de tudo, melhorar as escolas daqui também, é muito mais importante correr atrás disso do que atrás de uma obra, já temos tanta obra, seja quem for o gestor daqui para frente. E como você mora numa cidade com mais de 100 mil habitantes e não tem UTI adulto nem UTI infantil? Se a pessoa adoecer aqui tem que se pegar a tudo o que é santo para chegar a Barbalha, Juazeiro ou Fortaleza, para poder escapar, esse é outro ponto que eu defendo que deve ser prioridade. Outra coisa: você não pode viver numa cidade do tamanho de Iguatu, que não tem um sistema de água e esgoto, o esgoto daqui corre pelas calçadas, já houve, por parte do prefeito anterior, um esforço dele nesse sentido, mas não deu certo, como também não deu certo o Aterro Sanitário, que é outra vergonha para o Iguatu. As futuras administrações têm que ver isso, temos que melhorar na base. Chega de tanta “coisinha”, porque você faz e a cidade não melhora em nada.  Acredito que deveria haver uma parceria entre as entidades da cidade, a Maçonaria, CDL, Sindilojas, Ipece, Lions, Rotary, todas essas entidades, eu aconselharia para que houvesse uma parceria entre elas com um objetivo único, em vez de cada um estar pedindo uma coisa e não chegar a lugar comum: aquilo que é importante. Essas entidades são formadas por pessoas formadoras de opinião. Então, os futuros pretendentes à administração de Iguatu tinham que ouvir esse grupo organizado, que quer estruturar a cidade para melhorar a vida do povo. Acho que é por aí. Não pode é uma cidade do tamanho de Iguatu, com 100 mil habitantes ainda estar no atraso que está. A culpa é de quem?

Jornal do Centro-Sul – Em sua opinião, qual o principal obstáculo para o desenvolvimento de Iguatu?

Valdeci – Existe uma falha muito grande no Iguatu na política; por exemplo, tem o gestor, aí você que é do outro partido, faz de tudo para desmanchar o que é feito, isso não existe. Você ser um chefe político, aí você tem seus candidatos que levaram um absurdo de votos aqui, mas o que acontece? Como você é de oposição, a administração acha melhor não aceitar a sua ajuda para ficar falando que você só quer derrubar, isso não tem sentido, aí o “povão” fica acreditando. Está errado. É natural que haja, durante a campanha política, os debates, as críticas, mas depois quando termina a eleição, o ideal é trabalhar em conjunto, porque se não fizer isso, nós todos estamos perdendo, a cidade toda perde e o desenvolvimento que era para vir finda que não vem.

Jornal do Centro-Sul – Como avalia o cenário político de Iguatu em termos de situação e oposição?

Valdeci – Para efeito de sucessão, eu não enxergo oposição, não vejo quem seria um candidato para concorrer com Aderilo ou, principalmente, com Agenor, por hora, pode até ser que ainda exista. Eu quero acreditar que se for o caso de Agenor ser candidato, ele sendo eleito, ele ouça as entidades, em vez de ele falar “eu falei com a entidade”. Não falou nada, ele fala que falou, mas na verdade, se perguntar a qualquer sócio, qualquer um chega e diz o que está fazendo e o que está trazendo.

Jornal do Centro-Sul – O senhor foi secretário de Agricultura e foi convidado para assumir uma nova pasta de Desenvolvimento Econômico da gestão atual. Não teve interesse?

Valdeci – Eu não vejo nada encaminhado, eu acho que tem muita conversa e pouco resultado, não se admite aqui, depois de 11 anos, não ter um chão para se montar uma estrutura. Isso é atraso. A alegação é a de que é muito caro o terreno para o Distrito Industrial, que precisaria de uns 50, 60 hectares, no mínimo, para acomodar as indústrias que estão espalhadas, cada uma numa rua, então precisava se colocar esse pessoal num ambiente aonde o comprador chegasse. E tem que ter a infraestrutura, não é só o terreno. Se for caro, porque dentro da cidade é mais caro, pode ir para longe, a dois, três quilômetros da cidade, que tem terreno mais barato, vai puxar o desenvolvimento urbano para outra área. Como você vai criar uma Secretaria de Desenvolvimento Econômico, para estar pagando secretário, funcionários, para não fazer nada? Onde vai trabalhar? Essa é a minha visão.

Jornal do Centro-Sul – Sendo ex-secretário de Agricultura, como avalia a pasta na gestão atual?

Valdeci – Eu não tenho acompanhado de perto, mas tenho conhecimento. A Edileuza é uma líder comunitária, uma pessoa muito ativa, e pelo que eu tenho conversado com alguns agentes rurais, ela tem correspondido, é uma pessoa realmente dedicada e muito interessada em fazer alguma coisa, não faz mais porque estamos vivendo um momento único, com problemas de falta de chuva, pelo terceiro ano; no tempo que assumimos tínhamos a motivação do pessoal que estava na Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural], que vinha de Petrolina e Juazeiro da Bahia, e o prefeito me deu autonomia para implantar a minha equipe, eu mesmo procurei trazer esse pessoal para fazer a implantação dessas culturas, como é o caso da fruticultura, que hoje têm no Iguatu, que antes não tinha.

Jornal do Centro-Sul – É tida como momento áureo do Iguatu a cultura do algodão. O senhor acha que a riqueza gerada nesse período foi aproveitada no desenvolvimento da cidade?

Valdeci – Não vejo tanto, o algodão era a coqueluche, todo mundo ia pra cima; o que ajudou muito foi o programa do crédito e a dispensa, você levava ao banco o índice de perda e todos se beneficiavam, foi uma época muito boa. Depois veio a época do arroz, houve uma produção muito boa também. Hoje é uma cultura que não compensa, ainda mais com a energia no preço que está, quando você tem muita oferta, o preço vai lá para baixo. Hoje tem o leite, um produto da pecuária que eu acho o “menos ruim”; existem os cartéis para fixar o preço baixo, mas existe a vantagem de você produzir e eles irem buscar o leite lá na sua propriedade e a cada 15 dias eles estão pagando. Você vende um tanto mais, você tem melhor preço, o que é diferente dos outros produtos.

Jornal do Centro-Sul – O agronegócio é bem explorado em Iguatu e região?

Valdeci – O agronegócio é uma atividade para quem tem muita produção, quem produz em escala maior, aqui a maior parte da nossa cultura é da agricultura familiar, as áreas de produção são pequenas, 90% das propriedades. De propriedade grande temos a Chapada do Moura, que hoje está com um projeto muito grande, muito bonito, com um pivô central produzindo milho para forragem e também para comércio. É um projeto muito bacana, muito bonito, estão pegando água lá no Jenipapero, a oito quilômetros de distância, levando para a Chapada. Está fazendo esse trabalho para poder alimentar o gado dele, que produz em torno de 9 a 10 mil litros de leite por dia, aí ele produz a ração pro gado dele e, ao mesmo tempo, para quem interessar, ele vende a silagem.

Jornal do Centro-Sul – Nós vivemos um momento crítico no país, economicamente falando, como o comerciante Valdeci vem sentido esse?

Valdeci – É verdade. Há certo temor de muita gente que é empregado. Eles compravam com mais facilidade antes, muita gente fica precavida e não quer assumir compromisso com medo de perder o emprego. Mas a situação ainda vai mudar, acredito que vai chegar a um bom termo ainda, pode demorar um pouco. Eu sou otimista, nesse aspecto eu sou. Eu não sou muito otimista na política, quando eu vejo as brigas pelo lugar, um brigando, o outro derrubando, eu não vejo uma boa perspectiva no nosso município, ele tem tudo para ser um dos municípios mais desenvolvidos do Estado, mas ainda estamos no arrasto, arrastando os pés devagarzinho. O que eu sei é que quem se mete em política e quer ser um gestor tem que ter pique, fôlego para correr atrás disso, que é o que o povo quer, o pobre quer, a classe média, todo mundo.

Jornal do Centro-Sul – O senhor já foi vice-prefeito e secretário municipal, tem ainda alguma pretensão política?

Valdeci – Não. Eu sou um crítico da administração, mas no sentido de querer ajudar, partidariamente eu não tenho expectativas, para mim tanto faz qualquer partido, eu já perdi a esperança, na minha cabeça é tudo igual. Vou ficar como crítico, onde eu puder ajudar, eu estou pronto.

 

Foto: Jan Messias

*Entrevista publicada em 2015

Emmanuel Montenegro
Emmanuel Montenegro
É jornalista profissional desde 2008. Já foi assessor de imprensa, repórter online e de TV, redator publicitário. Pesquisa e escreve sobre histórias de vida e trajetórias empresariais desde os tempos da faculdade. Até que resolveu viver disso: fundou a Edições BPM, companhia dedicada à escrita de biografias, perfis e memórias de vida e de empresas.

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