Moacir Bedê e Chicão. Foto: Igor de Melo

Moacir Bedê e Chicão. Foto: Igor de Melo

Local de convivência da juventude de Fortaleza durante a passagem da década de 1970 para 1980, a Praça Portugal entrou para a memória afetiva de boa parte dessa geração, que identifica o espaço como símbolo maior de uma época áurea preenchida por boas lembranças

Quando chegou para morar no coração da Aldeota, nos idos de 1973, o músico Moacir Bedê, 48, não imaginava que ganharia um momento importante na sua história de vida: o contato aproximado e quase diário com a Praça Portugal, inaugurada cinco anos antes, que vinha pouco a pouco se configurando como área de lazer da parte leste da Capital. Saindo com a família da Rua Monsenhor Bruno para habitar um imóvel adquirido pelo pai na Rua Pereira Valente, o menino Bedê tinha a seu dispor um local próximo de casa para curtir a infância com tudo o que tinha direito na idade de sete anos.

A Praça Portugal era lugar ideal para as brincadeiras daquela faixa etária, como o pega-pega. “Eu era pivete, tinha uns sete anos de idade, vinha, às vezes, só; tinha meninos brincando no local de brincadeiras de menino, ou vinha com a minha mãe, ou com a minha irmã mais velha”, recorda o músico.

Mais tarde, já entrando na adolescência, Moacir fala que a praça se tornou ponto de encontro da juventude, nas sextas-feiras à noite. “Virei frequentador assíduo da praça, já na cocotagem, na época de paquerar. Vinha a garotada, todo mundo paquerar, para depois sair pra outro lugar, alguma boate ou pra festa de 15 anos”, lembra.

Nessa época, era realizada no equipamento uma espécie de feirinha, que comercializava de comidas típicas a peixes ornamentais para aquário. “Aqueles peixes que vem dentro do saco”, conta. Na esquina da praça com a Avenida Desembargador Moreira, passou a funcionar ainda o Shopping Portugal (do tipo mall), onde os adolescentes se reuniam também para paquerar.

Em certa ocasião, aconteceu um episódio engraçado com Bedê: “eu tava paquerando, olhando pra menina, aí não me dei conta, pisei errado e cai dentro do negócio de água (havia um lago artificial na área central da praça) onde tinha peixe. Peixe grande. Todo mundo deu uma vaia”. Hoje, morando em novo endereço, na Joaquim Nabuco, o músico costuma visitar a Praça Portugal acompanhado de Chicão, cachorro da raça labrador que completou 11 anos de vida.

Adriana Montenegro Brito. Foto: Igor de Melo

Adriana Montenegro Brito. Foto: Igor de Melo

Já Adriana Montenegro Brito, 50, pianista e musicista, não ia à praça em busca de peixes, mas sim dos gatos! “Eu ia com os amigos do meu bairro (Aldeota) lá na feirinha. Tinha vários objetos pra vender e tinha também barracas com comidas. Mas o bom mesmo era ir paquerar lá às sextas-feiras”, diz Adriana, que não esquece a forma como se dava essa paquera, tímida: “eram olhares e cumprimentos. Era muito interessante! Os meninos sempre davam um jeito de passar por perto e dizer um ‘oi’. Aí, em breve, davam outra volta e diziam outro ‘oi’. Então, nós meninas, já achávamos que estava rolando uma paquera”, recorda com saudade.

Sérgio Brito. Foto: Igor de Melo

Sérgio Brito. Foto: Igor de Melo

Saudade dessa época também sente o arquiteto Sérgio Roberto, 48, que viveu os tempos áureos da Praça Portugal, dos “12 aos 16 anos, mais ou menos”, usando sapato “dockside” e calça jeans Us Top. Ele lembra como se fosse hoje. “Olho e parece que tô vendo aqui, agora, como é que era: ‘eu morava ali perto do Ideal [Clube], no Meireles, numa casa; o bairro ainda muito horizontal. A Aldeota era muito linda; Fortaleza era muito linda. A gente passava, tinha aqueles jardins das casas, que eram meio recuadas’”.

Havia uma segmentação do público que comparecia à Praça Portugal de antigamente, segundo Sérgio. “A galera mais coroa ficava mais aqui na praça e a turma mais jovem ficava naquela esquina lá junto do shopping [Portugal]. Nessa rua lateral, era uma rua mais escurinha que era lotada de casais de namorados”.

Para o arquiteto, a Fortaleza desse tempo era uma outra cidade, totalmente diferente. “E a praça representa justamente isso, essa saudade desse tempo, a gente querendo voltar para essa história”, avalia.

No local, ele viveu inúmeras histórias boas e outras nem tanto assim – foi na praça onde começou namoros e, saindo dela, que foi assaltado pela primeira vez. “Uma coisa inédita, o cara chegando com a faca, levaram meu relógio”, conta Sérgio, que nem por isso guarda uma lembrança negativa do lugar, tampouco da cidade onde nasceu e vive até hoje. Ao contrário, “é um caldeirão de lembranças que fica desse tempo. Pra mim, foi um tempo ótimo, maravilhoso. E essa cidade também sempre vai ficar na lembrança, porque já não é mais, já não existe mais”, conclui.

Matéria publicada em somosvos.com.br (09/12/2016)

11 de dezembro de 2016
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Portal Vós: Praça Portugal revisitada

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